domingo, 9 de março de 2014

SAGA FAMILIAR


Meu pai agricultor
Curvado, enxada nas costas
Minha mãe abrindo portas
Tecido na mão
Costureira de muitas dores
Na busca de nosso pão
Na ilusão de indefiníveis cores
O sonho de uma vida com sabor


Cinco Josés e cinco Marias
A preencher os dias
Bocas pedindo alimento,
Educação e lazer
Mamãe à noite a costurar
Papai sem nada falar
Cabisbaixo em seu lamento
Sempre desejando novo viver


A doença veio visitar
Sete corpos num mesmo olhar
Difícil, como animal arisco,
Nada a fazia partir
Assim, antes de fugir,
Levou consigo José Francisco



Mas a vida continuou
Nova doença, novo horror
Papai inválido não mais plantou
Para a cidade a família rumou
Procurando para a vida uma saída
A estrada antiga deixar esquecida



De esforço em esforço fomos vencendo
As barreiras do caminho
Novos membros aparecendo
Outros já abandonando a luta
Papai foi plantar estrelas
Mamãe continua acendendo velas
Aos santos, para que na labuta

Diária, ninguém esteja sozinho.

sábado, 8 de março de 2014

CANTO FINAL



A morte me espreita
Com seus dedos de metal
A morte me sujeita
A um viver letal.

A morte me acompanha
Com sua voz de verdade
A morte nunca sonha
Sonho é sinônimo de liberdade.

A morte me mantém preso
Nas masmorras das desilusões
E cobra caro, alto preço
Para se ter pequenas visões.

Por alguns anos serei lembranças
Que o relógio vai apagando
Restará das minhas andanças

Velhos fantasmas na forca soluçando.

quinta-feira, 6 de março de 2014

CANTO DE EXALTAÇÃO À SOLIDÃO



Faca afiada
Corta as amarras
Do ontem e do amanhã

Faca afiada
Dilacera a carne
Dor no desejo

Faca afiada
Cala a fala
Profundo beijo

Faca afiada
Degola o olhar
Que insiste no querer

Faca afiada
Sangra os sonhos

Impede o viver

JOGOS DE AZAR



Um jogo de dados
Salta-me do olhar
Quando caminho perdido
Nas imagens da existência


Na vida o subjetivo
Manda, comanda, afeta
Todo olhar que se preza
Colhe rosas e espinhos

Posso querer sertão e mar
Que o justo é novidade
Seis faces espelhando
Passado, presente, futuro

Salta-me do olhar
As imagens da existência
O caminhar perdido

Um jogo de dados

quarta-feira, 5 de março de 2014

ESPÓLIO FINAL







E A VIDA PASSOU  POR MIM
EU NEM AO MENOS DISSE ADEUS
TODOS CONSTROEM O SEU JARDIM

EU NÃO SEMEEI OS CANTEIROS MEUS.

terça-feira, 4 de março de 2014

ALMA NÃO TEM COR


Não importa a cor
Brancos, negros, vermelhos,
Cafuzos, confusos, amarelos,
Mamelucos, malucos, mulatos,
Não há como negar a dor
De crianças, jovens e velhos
Que são parias, vivendo paralelos
Na rua, em asilos e orfanatos,
Sem conhecer a flor
Dos girasois e rosas e amores perfeitos
Na rotina alegre dos castelos
Dos comandantes afortunados
Não importa a cor
Não depende de espelhos
A opressão não doa caramelos
Para adoçar os amargurados
Não importa a cor
Todo bem vem do coração
A alma estampa a cor

Definida somente pela ação. 

domingo, 2 de março de 2014

QUEM QUER FAZ SEU DESTINO



Os cães latindo à noite
Não sabem que a lua
Impassível
Não pode atender suas preces.

Os galos cantando na madrugada
Não sabem que os homens
Continuam dormindo
E não podem mudar seus destinos.

O cão que late à lua
O galo que canta na madrugada
Não sabem que a humanidade
Continua nua.

E o homem tranqüilo dorme
Na esperança que Deus
Interfira no trajeto
Durante a travessia da rua.