sábado, 20 de dezembro de 2025

 

Refazalma

 

Eu quis aclarar a mente

De verão somente.

Não contava com a realidade,

Viva em meio à tempestade.

 

Eu quis que o meu sono

Nada tivesse de outono.

Não contava que o sonho se vai

Quando a folha da noite cai.

 

Eu quis que meu caderno

Em nada falasse de inverno.

Não contava que o frio

Aparece, mesmo durante o estio.

 

Por fim, pensei que a primavera

Iria trazer uma nova era

Não contava que nos caminhos,

Mais que flores, há espinhos.

 

Assim, de estação em estação,

Ficou habitado meu coração.

Agora tudo se refaz em poesia:

Diferentes tempos em cada dia.

 

 

 

 

Esquinas

 

Sobrevivendo, mas parado

Em qualquer esquina,

Vendo o tempo passar

Em movimento alheio.

O meu falar atrofiado

Não sabe a que se destina,

A linguagem do olhar

Que se divide meio a meio.

Em tudo, só há passado

Em ruas que a humana sina

Não pode mais povoar.

Mudam-se as esquinas, ficam os passeios!

 

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

 

Universo ao meu redor

 

Meu mundo gravita

Em torno da torre e do sino.

Minha orbita passa

Pela praça Ana Angélica.

Você, meu sol, nunca aparece

E meu finito universo

Fica inacessível como miragem.

É meu pesadelo o destino

De uma constelação sem sol ou luar.

Meu mundo nunca muda,

Sempre fica como um dia

Que entristece

Numa musica sem som, sem verso.

 

Meu mundo gravita

Em busca da orbita necessária

Para ser banhado por um sol

Que seja a sua semelhante imagem.

 

Meu mundo é um pária

Sem destino,

Sem samba,

Sem futebol.

 

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

 

Blues da partida

 

Vou partir

E deixar a casa desarrumada.

Nada importa

Nesta fracassada missão.

 

Vou embora

E que tudo mais me ignore.

Nem pai, marido, filho, irmão.

 

Que se feche a porta

E seja trancada

Para nunca mais se abrir.

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

 

A mesma estação

 

Em meu jardim de setembro,

Não entra primavera

E nenhuma cor.

 

Só as folhas caídas do outono

Que a saudade deixou.

 

O tempo não muda nunca.

 

Minha alma foi perdida

No outono,

E o outono ficou

Uma estação sem fim.

 

domingo, 14 de dezembro de 2025

 

Preocupações com a vida e a morte

 

Eu não acordo todas as manhãs.

Não sei o que é dormir...

Sobre o lençol, revivo sonhos.

Penso em cada ato.

Revivo cada fato,

Sabendo que não se pode fugir

E que o relógio marca o tempo da morte,

Nunca o da vida.

 

Nunca posso dormir.

Tenho medo extremo de morrer

Sem que a vida me faça companhia.

 

Não quero a noite.

Não quero o dia.

Tudo que quero é viver.

Eu não acordo todas as manhãs...

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

 

Esse estranho desconhecido

 

Só porque leu um poema meu,

Não pense que me conhece.

Esse sorriso que entristece

Tem mais de mil facetas.

Pode ser Deus ou o Capeta.

Esses vários todos sou eu.

 

Só porque conhece meu olhar,

Não pense que me decifrou.

Sou o perfume e o espinho de toda flor.

Meu mapa nunca foi totalmente explorado.

Sem uma bússola, não se chega ao tesouro abandonado.

Esse mundo desconhecido é o meu lar.

 

Só porque conhece algum segredo

Deste meu ser de milenar enigma,

Não pense que já está por cima.

Com uma palavra posso te derrubar.

Tanto o céu como o inferno posso mudar.

Se um dia sou coragem, em outro sou puro medo.

 

Desista. Nunca pretenda me descrever.

Não há palavras para me classificar.

Nem herói ou vilão para me comparar.

Sou aquele que não pode ser decifrado,

Cujo domínio público já foi declarado.

Sou uma única questão: “ser ou não ser?”

 

sábado, 6 de dezembro de 2025

 

Natureza humana

 

Meu ser é um universo,

Sempre dividido

Entre o bem e o mal.

Há infinitas possibilidades.

No sono, sonho que anjos

Invadem meu mundo.

Quando acordo, o demônio

Revela minha realidade.

 

É um rio caudaloso

A separar coração e mente.

Uma mão vive para a caridade,

A outra para a maldade.

É assim o humano

Que não limita seu horizonte.

 

Tudo é possível,

Tudo é legal,

É permitido.

Quero alcançar o sol

E também abraçar a lua.

Fazer o que o diabo gosta

Deixa Deus aliviado.

Céu e inferno têm na alma

Seu espaço finito.

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

 

Vida

 

Eu cobro corner,

Corro, faço gol.

O máximo que consigo:

Um empate.

A vitória não tem abrigo.

 

No embate,

À procura de um lugar ao sol,

Neste país vendido,

Viver - ir além do sobreviver-

Não é permitido.

 

Eu cobro corner,

Corro, faço gol,

No embate, um empate.

Sobrevivendo.

 


Aprisionado

 

Fico preso ao passado.

Órfão de Deus,

Há muito morto.

Acompanho a humanidade

Um atestado, de fiel,

Vencido,

Invalidado pela realidade.

“Se Deus quiser

(Como se a vontade fosse dele

E não minha)

Tudo se ajeita.”

A vida se aninha

Nas leis do universo.

Faço contas

Entre débitos e créditos,

Estou sempre no vermelho.

Insisto no verso

De que ser velho

É ter vida melhor, mais experiência.

 

E no balanço

Quando há fechamento,

Fica explicito

A banalidade da existência.

 

 

 

 

 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

 

Palhaço

 

No peito, um coração trapalhão

Que busca da vida

O sabor,

Que vá além da partida

E do calor,

De nossas duas almas fundidas

Numa só cor.

Esse coração quer amar mais,

Ainda que seja tarde.

Há ânsia por outros cais

E não esse sempre

Mínimo mar,

Mergulhado no máximo

De dor.

 

 

 

Existencial

 

Não acredito na vida eterna.

Será minha existência um fracasso?

 

Em meu altar

Buda, Cristo, Alá, Krishna

Têm o mesmo espaço,

 estão calados,

Eternamente calados!

 

Não acredito na existência da alma.

Será minha vida vazia?

 

O meu fantasma,

Lembrança do que fui, do que fiz,

Não valerá um sorriso?

Não valerá aquele momento feliz?

 

Na morte, o fim.

O tudo e o nada.

Termina assim uma mente condenada?

 

 

Apesar de tanto sonhar

 

Apesar de tanto sonhar

Eu nunca fui Di Stefano,

Eu nunca fui Pelé,

Eu nunca fui Maradona.

 

Eu nunca dei o que falar.

Nem mesmo quando cair o pano

Ninguém vai dizer assim:

Este foi o cara

Que a vida agora abandona.

 

A vida me abandonou ao nascer.

Nunca conhecerei a eternidade.

Eu nunca fui

Carlos Drummond de Andrade.

 

Ainda menino

 

Pela rua deserta,

Passeia o menino.

E a lua,

Companheira de destino,

Também um astro desfigurado,

Traz luz de outro alguém.

Não vence nuvens,

Não convence estradas.

Há outros mares

A serem navegados.

As ilhas exploradas

Continuam mudas.

Os arquipélagos inexplorados

São tantos,

E o menino

Não construiu as pontes

Para o adulto explorar

Todas as ilhas e seus horizontes.

 

 

 

 

 

 

 

 

Destino

 

I

 

O que deveria ser

Vastidão verde

É sempre tão desértico

Como a tarde.

E em sua eterna presença

Mal o sol brilha.

A noite tudo enegrece;

Mal que a alma padece.

Não tem cura,

Nunca haverá salvação!

Vai, andarilho,

Percorrer estradas sem fim.

Amanhã não haverá ida,

E o olhar perdido

Manchar-se-á

De nuvens e trovões.

É Antônio Dias que desaparece

Da memória e fotografias.

 

Para quem nasceu

Burro de carga,

Assis morrerá.

A porta para a felicidade

Nunca abrirá.

 

II

 

A vida não me mostrará

Outros caminhos

Pelos quais trilhar,

Diferentes horizontes.

Fico a mirar,

Mas nunca sei

Como lá chegar.

 

O meu viver se exilou

Numa terra de espinhos.

Prisão difícil de escapar.

Como seguir em frente

Se nunca sei onde pisar?

Mesmo sem fé, pelos cais, orei.

Nem deus pôde me orientar.

 

A vida não quer entregar

O direito de viver e de sonhar.

 

 

 

Dilema

 

Sempre há uma estrada

Que leva ao centro da cidade.

 

Eu prefiro a periferia.

 

Eu sou do campo

E sobrevivo do centro urbano.

Por isso, essa indecisão

Que desfaz toda a felicidade.