quinta-feira, 18 de abril de 2013
AQUELA INFÂNCIA
Aquela casa não existe mais
Ninguém mais verá
Suas paredes, pintadas de nuvens,
Pau a pique
Seus esteios pintados de céu
Seu piso de tabuas rústicas
E terra batida
E o fogão de lenha sempre acesso
Tudo muito limpo e bem cuidado.
Essa casa não existe mais!
O menino louro não existe mais!
Descalço, andar trôpego, sem camisa
Livre como qualquer bicho do mato
Esse menino que não conhecia
Preocupações, presente, futuro
Só os brinquedos rústicos
Feitos de latas de sardinhas
Retróses e muita imaginação.
Esse menino não existe mais !
Mesmo não existindo mais
Esse menino ainda visita
Essa casa
E nesses momentos, nos olhos do adulto,
Desce uma cachoeira
Como se fosse a cachoeira do Caxambu
Tanta água não afoga as magoas
Deixa-as mais vivas e presente
Com um olhar perdido
No passado
Tão distante
E presentemente perto
terça-feira, 16 de abril de 2013
REINO ANIMAL
Ah! O homem
Esse ser animal
Que se diz racional
Por isso mais predador
Que os demais.
Que faz a guerra
Para dizer que quer a paz
Que inventa jogos e paixões
Cria vida virtual e outras ilusões
Que cria deuses
À sua imagem e semelhança
E domina seus semelhantes
Sem culpa ou benesses
Ah! Os homens
Esse ser fantástico
Tão inteligente e tão arbitrário
Que reza aos céus
Quando se diz com a razão
Mas traz o erro eterno
De julgar com a mente
E nunca com o coração
E ver cada vez mais longe
Um novo horizonte.
Ah! Esses homens!
Ontem, hoje, sempre
O rei do universo
Seguindo miragens
Para cantar em prosa e verso
Heróis e traidores
Como o mesmo senso de adoração
Rotineiramente sabedores
De sua humana limitação
Ah! Os homens...
A benção e a desgraça
Do ínfimo lampejo infinito
Chamado vida.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
GENESIS
I
Ofereço-te
Meu corpo nu
Para que possa explorá-lo
Em toda sua extensão
De norte a sul
Leste a oeste
Decifrando sua geografia
E principalmente conhecer
Suas ilhas incógnitas
Que lhe preconizam o prazer
Todos os segredos
Todos os relevos
Lhe serão revelados
Para que possa comê-lo
Como bem entender
E até mesmo
Nada fazer
II
Ofereço-te
Meu impenetrável interior
Para que nele possa abrir
Estradas
E caminhar como senhora
Na criação do que serei
Amanhã
Você moldará meu espírito
Como uma deusa infalível
E nele soprará
Toda vida que necessito
Até que o pecado venha
Corromper-me
E eu seja expulso
Do teu coração
Ai virá lamentos
E séculos de expiação.
domingo, 14 de abril de 2013
DIVAGANDO
Toda manhã
Aquele desejo
De alguém ao meu lado
Um carinho, um beijo
Sonho acordado
Em meu coração
É alto verão
Tempestades algozes
Trazem enxurradas
De lágrimas e dores
O sol não chega
Nuvens escuras, céu nublado
Mesmo caminho a ser trilhado
Nenhuma esperança de felicidade
Na rotina da realidade
A solidão a mim se aconchega.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
APRISIONADO
Fico preso ao passado.
Órfão de Deus,
Há muito morto.
Acompanho a humanidade
Um atestado de fiel
Vencido
Invalidado pela realidade.
“ se Deus quiser
( como se a vontade fosse dele
E não minha)
Tudo se ajeita”
A vida se aninha
Nas leis do universo
Faço contas
Entre débitos e créditos
Estou sempre no vermelho
Insisto no verso
De que ser velho
É ter vida melhor, mais experiência
E no balanço
Quando há fechamento
Fica explicito
A banalidade da existência.
domingo, 7 de abril de 2013
JUÍZO FINAL
Quando conhecer o juízo final
O meu fim será total
Nenhuma palavra, nenhum gesto
Nada restará
O vaso é ruim
E se desintegrará
Nem mesmo credor
De mim lembrará
Não deixarei bens, nem débitos
Só as grandes dores
Que em muitos provoquei
E por serem imperdoáveis
Espero serem esquecidas
Num apagamento universal
Nem mesmo cinzas restarão
O meu juízo será mesmo final..
quarta-feira, 3 de abril de 2013
QUASE SANTO
Desculpe-me Pablo por este sacrilégio
Colocar teu nome em meu filho primogênito
Meu deus da juventude, deus comunista da poesia
A ti oro toda vez que olho
Meu filho, com carinho.
Ah! Esse nome tão divino e régio
Na boca deste homem inútil
E nada santo
Culpado sou de tamanha heresia
Mas nós, os hereges, sabemos
Caminhar sobre espinhos.
Perdoe-me Pablo por este sacrilégio
Colocar teu nome em meu filho primogênito.
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